domingo, 19 de agosto de 2012

A trlha sonora do poder negro

EM JUNHO de 2006, o escritor Jonathan Lethem escreveu um ensaio sobre James Brown em que alertava para a necessidade de pesquisar com profundidade a trajetória do cantor, compositor e dançarino norte-americano. “Em algum momento, alguém vai escrever uma grande biografia sobre James Brown. Será, por necessidade, mais do que uma biografia. Será a história de meio século de tragédias incorporadas ao destino dos afro-americanos no Novo Mundo; uma parábola, inclusive das contradições do indivíduo na sociedade capitalista, que pode soar portentosa.”


O texto de Lethem, publicado pela revista Rollíng Stone seis meses antes da morte de Brown, em 25 de dezembro daquele ano, revelou a cortina de fumaça criada por uma carreira de numerosos escândalos e um comportamento agressivo de Brown, em 25 de dezembro daquele ano, revelou a cortina de fumaça criada por uma carreira de numerosos escândalos e um comportamento agressivo.

O jornalista R.J. Smith seguiu o conselho de Lethem em James Brown, Sua Vida,Sua Música (LeYa Brasil, 632 págs.,R$ 44,99, tradução de Luis Reyes Gil), considerada a biografia mais completa do Godfather of Soul. Smith identifica nas raízes de Brown os africanos trazidos para a América como escravos, cujas danças e manifestações musicais foram censuradas.

Em sua biografia, o cantor norte-americano afirmou que todos os instrumentos e a voz eram percebidos por ele como sons de bateria. Brown criou um novo espaço na indústria do entretenimento com a manipulação criativa do ritmo musical e a supressão dos floreios melódicos. Foi propulsor da ascensão da sou 1music, do funk e do hip-hop. Com suas inovações, apresentadas de maneira crua e emocional, fez mais do que chamar a atenção do mainstream para a música negra. Ele transformou os negros em elite musical durante o período mais conflagrado da reivindicação por direitos iguais, entre os anos 1960 e 1970.


“Ao conceber a sua banda como uma unidade rítmica interligada e fechada, ele ofereceu uma das suas maiores contribuições: uma voz para o movimento Black Power”, diz Kevin Fellezs, professor da Columbia University, a Carta Capital. “Say It Loud (I’m Black and I’m Proud), composição de 1968, é explicitamente sobre orgulho racial e.reveladora de um engajamento político que incentivou a aceitação de uma estética negra”, completa Fellezs, autor de Birds of Fire: Jazz, Rock, Funk and the Creation ofFusion (Duke University Press, 2011). No comportamento fora e sobre os palcos, Brown se aproximava mais da defesa da autodeterminação e do nacionalismo negro por Malcolm X, influência intelectual do Black Power, do que da política de não violência de Martin Luther King Jr. inspirada em Mahatma Gandhi.

Essa atitude combativa arrefeceu no dia seguinte ao assassinato de King, ocorrido em 4 de abril de 1968. Em vez de cancelar um show em Boston, Brown exigiu que fosse televisionado. Os incêndios e depredações país afora expunham a revolta contra a morte de King. O público invadiu o palco em Boston, mas foi contido pelos pedidos de Brown, ao microfone, antes de a polícia intervir. Essa noite registrou de modo irrefutável a liderança do compositor sobre as massas. Preso nos anos 1980 e 2000, por ter dirigido sob influência de drogas e agredido a mulher, Brown declarou ser a fama o seu maior crime.

Quando a Receita Federal norte-americana apreendeu um avião e outros bens, em punição à dívida de 4,5 milhões de dólares de impostos não declarados, o compositor se disse perseguido. Tal acusação fazia sentido diante das medidas de J. Edgar Hoover em relação às lideranças afro-americanas, consideradas uma ameaça à segurança nacional. Diretor do FBI, Hoover grampeou Martin Luther King Jr., tachado por ele de “comunista”, e deportou o jamaicano Marcus Garvey, defensor do nacionalismo negro e do pan-africanismo. Uma voz poderosa, Brown podia facilmente ser considerado um inimigo da nação.

Apesar desse embate com o establishment norte-americano, o cantor apoiou, em 1972, a reeleição do conservador Richard Nixon à Presidência. Único presidente dos EUA a renunciar ao cargo, Nixon se opôs às conquistas sociais dos anos 1960, como a aprovação da lei dos direitos civis. Antes da visita de Brown à Casa Branca, o político republicano perguntou em conversa gravada: “O que devo fazer? Sentar e conversar com ele?”

Ao converter as batidas do gospel e do blues em “uma máquina de ritmos”, Brown exorcizou traumas históricos e pessoais. “Há dois tipos de dor. A física e a mental. Quando grito no palco, manifesto ambas. A mais difícil de suportar é a mental. Pois ela me faz lembrar dois bebedouros, um para o branco e outro para o negro”, dizia o performer sobre a segregação racial na América. Segundo Smith, um dos maiores sonhos de Brown, egocêntrico e obcecado pela fama, era a fundação de um museu com o seu nome.

Ele guardou memorabilia em sua casa de Beech Island, cidade da Carolina do Sul, na divisa com a Geórgia. Nessa região, Brown nasceu em 1933, teve uma infância solitária, foi preso na adolescência e aprendeu a ser músico. No imóvel encontravam-se desde instrumentos de tortura de escravos a roupas extravagantes usadas nos mais de 350 shows feitos anualmente. A intenção de criar o museu está, no entanto, descartada em razão de disputas judiciais sobre o acervo e direitos de licenciamento. No início dos anos 2000, Brown estabeleceu em testamento a criação de dois grupos de administradores.

Três pessoas eram responsáveis por repartir a riqueza do compositor entre os seus netos e crianças pobres da vizinhança onde ele cresceu, sendo surrado pelo pai e por uma tia dona de bordel. Dois desses administradores venderam em leilão parte do patrimônio do cantor para pagar credores. O imóvel de Beech Island permanece fechado. Smith cita boatos de que túneis, cavados por saqueadores, levam ao interior da casa. Lendas atestam que no fundo falso de uma parede se escondem centenas de milhares de dólares. Ninguém sabe confirmar o tamanho da fortuna do Godfather of Soul. O dinheiro, essencial para James Brown exercer sua liberdade em um país racista, pode agora prejudicar a preservação da sua memória, por ele tão desejada.

Fonte: Carta Capital, em 18/07/2012

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