sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Jornalista compara julgamento de integrantes de banda punk na Rússia à inquisição

Dentre os sentimentos ruins que alguém pode sentir em relação ao próprio país, a vergonha é o mais doloroso. O ultraje pode levar alguém a agir; a tristeza promove a solidariedade; até o medo pode unir as pessoas. Mas a vergonha não apenas pode fazer uma pessoa ficar tímida, como dar as costas ao seu próprio país.

Nadezhda Tolokonnikova (esq), Yekaterina Samutsevich (c) e Maria Alyokhina, da banda "Pussy Riot", acompanham julgamento em Moscou
Nadezhda Tolokonnikova (esq), Yekaterina Samutsevich (c) e Maria Alyokhina, da banda "Pussy Riot", acompanham julgamento em Moscou

Eu me lembro distintamente da primeira vez que reconheci o sentimento de vergonha em mim mesma. Foi há pouco mais de um ano, quando assisti a um vídeo de um ativista gay americano, o tenente Dan Choi, sendo pego e arrastado pela polícia de Moscou nos arredores da Praça Vermelha, por tentar participar de uma parada do orgulho gay ilegal. Eu também me lembro de pensar sobre o que me fazia sentir vergonha: eu imaginava muitos dos meus amigos em outros países assistindo ao vídeo e pensando que eu vivia em um país atrasado.

Neste ano, esse sentimento está se tornando familiar. O julgamento em andamento de três membros da Pussy Riot, a banda feminina que realizou uma “oração punk” anti-Putin na principal catedral de Moscou, foi comparado à Inquisição Espanhola, uma caça às bruxas e aos julgamentos falsos stalinistas (eu também sou culpada por essa comparação). Todas essas comparações dão muito crédito aos tribunais de Moscou. A Inquisição, os caçadores de bruxas e até mesmo os executores de Stálin acreditavam em suas causas e lutavam passionalmente por elas. O que está acontecendo atualmente no tribunal em Moscou é uma caricatura cínica e sem paixão de justiça.


Nadezhda Tolokonnikova, da banda punk feminina Pussy Riot, aguarda julgamento em corte de Moscou nesta quinta-feira (19). Nadezhda e duas colegas são acusadas de vandalismo realizado por um grupo organizado por terem invadido a catedral do Cristo Salvador, considerada a mais importante da igreja ortodoxa russa, e cantado a música "Punk Prayer" ("Prece punk", em tradução livre) no altar do templo

Veja a juíza, por exemplo. Ela parece considerar que a possessão por um demônio é um diagnóstico médico válido. Ou veja o promotor, que exigiu que o julgamento fosse fechado ao público – como se a apresentação das mulheres fosse um segredo de Estado. Ou veja o advogado de defesa que, quando a juíza o corrigiu pela linguagem imprópria, respondeu, “Não me diga o que fazer”. Ou os funcionários da justiça, que tentavam expulsar da corte os membros do público que se voltava para a janela – pela qual podia ser visto um protesto.

Ou a ameaça de bomba no quarto dia de audiências. O prédio foi evacuado enquanto o esquadrão antibombas trabalhava. Enquanto os advogados, testemunhas e jornalistas aguardavam no lado de fora, as três rés foram mantidas na sala do tribunal, onde a bomba supostamente foi plantada.

Ou veja o que aconteceu no dia seguinte. A defesa esperava finalmente começar a chamar as testemunhas, mas os funcionários da justiça não permitiram que a maioria das pessoas na lista da defesa entrasse no prédio. Então a juíza decidiu que não seriam chamadas para testemunhar por estarem ausentes. A defesa fez objeção; a juíza fingiu não ouvir.

Todo dia da semana passada, nas primeiras páginas de todo o mundo – exceto na Rússia– as manchetes falavam do julgamento da Pussy Riot. Vários dos artigos conseguiram transmitir a tragédia da situação: três mulheres jovens, duas delas mães de filhos pequenos, estão enfrentando anos de prisão por realizar um protesto pacífico. Mas eu não acho que nenhum desses artigos realmente transmitiu a natureza ridícula do que se passa por processo judicial atualmente em Moscou. O julgamento não é nem mesmo absurdo – uma qualidade que poderia ter algum apelo para as sensibilidades artísticas das rés. É simplesmente uma tentativa muito ruim e indecisa de espetáculo.

Isso me faz sentir vergonha. Mas vergonha leva a alienação – que é exatamente o que as autoridades do governo desejam: para pessoas como eu que se sentem forasteiras diante desses procedimentos e neste país. E essa é a única coisa que ainda me faz tentar sentir ultraje.

Masha Gessen é uma jornalista em Moscou. Ela é autora de “Putin – A Face Oculta do Novo Czar”, uma biografia de Vladimir Putin

Fonte: Herald Tribune, em 08/08/2012

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